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3 cuidados essenciais com a visão do recém-nascido

By agosto 29, 2020No Comments

Infecções, traumas e doenças congênitas são temas muito comuns quando o assunto é a visão do recém-nascido. De fato, tente imaginar o quão pequenininho é o olho de um bebê quando ele nasce. Por causa disso, a córnea e o cristalino, partes importantes do olho, têm um alto poder de convergência para que a imagem se forme em cima da retina. 

Acontece que, à medida que essas estruturas crescem, algumas falhas podem ocorrer. Além disso, recém-nascidos podem apresentar variações anatômicas ou resquícios de estruturas fetais nos olhos.

Nosso objetivo, no entanto, não é esgotar as inúmeras alterações oculares que podem acometer um bebê. Na realidade, falaremos sobre 3 eixos de cuidados essenciais que ajudam a prevenir doenças simples e graves da visão do recém-nascido. Vamos juntos?

a visão do recém nascido

A visão do recém-nascido

Eixo das doenças congênitas

O teste do olhinho

O teste do reflexo vermelho (TRV) ou “teste do olhinho” é um exame rápido, barato e que não causa dor. Ele é realizado em grande parte das maternidades brasileiras assim que o bebê vem ao mundo. Se não for possível fazê-lo ainda no hospital, no entanto, os pais devem providenciá-lo ainda durante o primeiro mês de vida.

O grande objetivo desse exame é diagnosticar problemas oculares congênitos que podem tirar a transparência dos compartimentos oculares. Só para exemplificar, nossos olhos são formados por algumas estruturas translúcidas por dentro, como a córnea, o cristalino e o humor vítreo. É essa transparência, portanto, que permite a passagem da luz e a formação das imagens na retina, que fica lá no fundo do olho.

O rastreamento deve ser feito o quanto antes, porque o cérebro da criança amadurece de acordo com os estímulos que chegam pelos sentidos. Se um estímulo não chega bem devido a uma opacidade, a região do córtex responsável por processar a informação sofre atrofia, e isso é irreversível a partir de certa idade.

Interpretando o exame

Para realizar o exame, o oftalmologista usa um aparelho que joga uma luz sobre os olhos da criança. A luz, por sua vez, produz um reflexo vermelho que permite avaliar se há alinhamento entre os dois olhos ou se ela tem estrabismo — desvio de um dos olhos —. 

Uma assimetria desse reflexo pode indicar, por exemplo, que a criança tem uma ametropia muito grave, como miopia ou hipermetropia. Outros problemas que podem ser interpretados de acordo com o reflexo vermelho são a diferença de grau gritante entre os dois olhos (anisometropia) e as malformações.

Além disso, o oftalmologista consegue concluir se os meios oculares estão transparentes, e se a luz consegue passar pelos olhos sem dificuldade. Isso porque, quando existe alguma opacidade, o reflexo pode se tornar branco (leucocoria). Assim, as causas mais comuns de teste do olhinho alterado são:

  • catarata congênita: opacificação da lente do olho;
  • glaucoma congênito: aumento da pressão ocular com degeneração do nervo óptico;
  • retinoblastoma: tumor que acomete a retina imatura;
  • inflamações intraoculares;
  • retinopatia da prematuridade (ROP) no estágio 5;
  • descolamento de retina;
  • persistência de vasos que fetais típicos da vida intraútero;
  • hemorragia do humor vítreo. 

Em suma, o teste permite diagnosticar e tratar problemas da visão do recém-nascido antes que ele fique com uma deficiência visual muito grande. Isso sem falar que, no caso do retinoblastoma, que é um câncer, o teste do olhinho salva vidas. 

Mas atenção: o teste do olhinho não dispensa a necessidade de levar o bebê à consulta oftalmológica aos 6 meses de vida ou, no máximo, ao final do 1º ano. Até porque em alguns casos o exame pode ser inconclusivo, e deve ser repetido algumas vezes na primeira infância (com 1 e 3 anos) até que a saúde ocular esteja realmente garantida.

Eixo anatômico-infeccioso

A obstrução do canal lacrimal

Talvez seja a primeira vez que você ouve falar, mas de 5 e 20% dos recém-nascidos nascem com uma condição chamada obstrução congênita do ducto nasolacrimal (OCDNL). Sabe aquela aquela bolinha de onde a maioria das pessoas pensa que saem as lágrimas, localizada no canto inferior medial dos olhos?

Então, na realidade, essa bolinha não é responsável por jogar a lágrima nos olhos quando choramos, e sim por drená-la. Isto é, a lágrima que continuamente lubrifica os olhinhos do bebê escorre para o canto medial, entra pelo buraquinho do ducto lacrimal e dali é jogada na cavidade nasal. Na cavidade nasal, por sua vez, a lágrima pode ser expelida ou então jogada para boca, onde será engolida.

Contudo, quando o bebê nasce com esse ducto obstruído, a lágrima não tem por onde sair e acaba escorrendo, causando lacrimejamento contínuo. Às vezes, há também o aparecimento de uma secreção mucoide, tipo uma remelinha. 

Diferenciando da conjuntivite

Quando o olhinho lacrimeja, as mamães logo pensam em conjuntivite. De fato, pode ser. Isso porque existem várias causas de conjuntivite neonatal, entre elas: trauma no parto, conjuntivite tóxica e gonorreia. Só o médico vai conseguir afirmar com certeza se é o caso, mas aqui vai uma dica: geralmente, a membrana conjuntiva que reveste a parte branca do olho não fica avermelhada na obstrução do ducto lacrimal.

De qualquer maneira, como você não vai conseguir fazer essa diferenciação sozinha, não demore em procurar o pediatra. No que diz respeito à obstrução do canal lacrimal, a boa notícia é que mais de 90% dos casos se resolvem antes do fim do primeiro ano de vida, e não há prejuízo à visão do recém-nascido. 

Para cuidar do problema, se o seu bebê tem até 6 meses de idade, você deve higienizar os olhinhos dele com água mineral ou soro fisiológico 0,9%. Outra parte importante do tratamento é a massagem de Crigler, cuja técnica deve ser ensinada pelo pediatra aos cuidadores. 

Basicamente, a massagem é feita com colocando-se o dedo indicador sobre uma porção específica do canalículo lacrimal, e fazendo movimento de compressão sobre ele na direção para baixo. O dedo impede que o material que está dentro do ducto saia  em direção ao olho. A pressão, por sua vez, ajuda a desobstruir o conduto e a abrir a passagem que vai permitir drenar a lágrima. 

Finalmente, nunca faça automedicação com o uso de colírios contendo antibióticos. A administração mesmo que tópica de antimicrobianos, assim como a indicação de passagem de sonda para desobstrução, são feitas com indicação do médico se houver necessidade, mas correspondem à minoria dos casos. 

Eixo neurológico

A visão do recém-nascido

Já não é novidade que a fase crítica do desenvolvimento neuropsicomotor infantil é o primeiro ano de vida, e com a visão do recém-nascido não é diferente. Embora os olhos e as vias neurológicas visuais comecem a se desenvolver na vida intrauterina, sua maturação só termina após o nascimento.

Isso significa que olhos perfeitos não bastam. A imagem só será formada e interpretada pelo cérebro com perfeição, se todas as vias que a levam dos olhos até o córtex forem bem desenvolvidas, e isso depende de muitos fatores, entre eles, das experiências visuais que o bebê tem nos primeiros meses de vida.

Por isso, é essencial que eventuais problemas nesse caminho sejam corrigidos o mais rápido possível. Caso contrário, o cérebro não se desenvolverá enquanto a plasticidade neuronal ainda existe e, depois disso, é tarde demais.

Só para ilustrar, se uma criança que não enxerga bem de um lado ou tem o desvio de um dos olhos, produzindo no cérebro imagens sobrepostas, com o tempo, o sistema nervoso central tende a suprimir a imagem “errada”. Se a correção não for feita dentro do tempo de desenvolvimento visual, teremos uma ambliopia, isto é, um problema cortical que não pode ser corrigido com óculos ou tampões.

Os marcos do desenvolvimento visual

Todo recém-nascido vem ao mundo com baixa acuidade visual, isso é normal. Entre 0 e 4 anos ocorrerá um refinamento da função visual, sendo que sua plenitude mesmo só se completa aos 10 anos de idade. Incrível né?

Ao longo do primeiro ano, portanto, você deve saber o que esperar do desenvolvimento visual a cada mês. Para isso, você vai avaliar habilidades específicas, sendo elas:

  • 1 mês: gira a cabeça em direção a um estímulo luminoso;
  • 2º mês: faz contato visual e segue objetos com o olhar;
  • 3º mês: faz contato visual persistente e se interessa pelo rosto humano;
  • 3º ao 6º mês: descobre as mãozinhas, pega objetos, muda o foco do olhar e observa brinquedos;
  • 7 ao 10º mês: percebe pequenos objetos; toca e, mais tarde, pinça objetos; reconhece objetos parcialmente escondidos;
  • final do primeiro ano: reconhece pessoas e figuras, brinca de esconder. 

Caso o bebê tenha nascido à termo e não atenda a essas expectativas, desconfia-se de retardo do desenvolvimento visual ou baixa acuidade visual. Em síntese, o oftalmologista vai precisar identificar se existe alguma condição intrínseca do olho (catarata, malformação, opacidades etc.) ou se é o caso de encaminhar para um neurologista.

Se realmente não houver alterações nos olhos, exames como ressonância magnética e eletrofisiologia permitem concluir se é apenas um atraso no desenvolvimento ou se há cegueira cortical, por exemplo, por lesão cerebral. 

Resuminho da visão do recém-nascido!

Olhando bem de pertinho esses três eixos (neurológico, infeccioso e congênito) de desenvolvimento da visão do recém-nascido, dá para a mamãe ficar bem mais tranquila. Enquanto o teste do olhinho já ajuda a eliminar grande parte das doenças visuais graves, observar os marcos do desenvolvimento é uma forma de continuar monitorando isso ao longo do primeiro ano.

Quanto às alterações anatômicas e, eventualmente infecciosas, ir à puericultura todos os meses é mais que suficiente para diagnosticar e tratar tanto a obstrução do ducto nasolacrimal, quanto as conjuntivites neonatais. 

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Referências

  1. Teste do reflexo vermelho. Sociedade Brasileira de Pediatria.
  2. Obstrução congênita de vias lacrimais: série de casos de sondagem e intubação.  Revista Brasileira de Oftalmologia
  3. Obstrução nasolacrimal congênita: fatores relacionados com a possibilidade de cura. Arquivos Brasileiros de Oftalmologia
  4. Recomendações Atualização de Condutas em Pediatria Departamentos Científicos SPSP Gestão 2016-2019
  5. Recomendações Atualização de Condutas em Pediatria. 2019
  6. Ministério da Saúde. Diretrizes de estimulação precoce crianças de zero a 3 anos com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor